O encontro aconteceu à beira de um abismo que não era feito de pedra, mas de memórias esquecidas e projetos abandonados. O Sonho observava as vastidões vazias de seu reino, enquanto a Morte, com a leveza de quem conhece o fim de todas as coisas, aproximava-se com um olhar de serena compaixão.


— Eles estão morrendo — disse o Sonho, sua voz carregada por uma melancolia que parecia pesar séculos. — Não os corpos. Os corpos são finitos e o destino deles é o teu domínio. Refiro-me ao que eles carregam por dentro. Eles param de sonhar muito antes de pararem de respirar.


A Morte parou ao seu lado, observando o horizonte cinzento onde as ideias perdidas se dissipavam como névoa ao amanhecer.


— Tu sempre te preocupaste demais com a chama, irmão — respondeu ela, com uma doçura que não suavizava a verdade. — Tu chamas isso de morte. Eu chamo de conformidade. Eles não morrem porque o tempo acaba; eles morrem porque deixam de exigir de si mesmos. Quando o propósito é trocado pela rotina, o que sobra é apenas uma carcaça que ainda caminha.


O Sonho virou-se para ela, a expressão tomada por uma inquietação profunda.


— Como podes ser tão serena diante de tamanha perda? Cada objetivo abandonado, cada vocação sufocada pelo medo, cada talento que nunca viu a luz do dia... isso é um luto que ninguém celebra. Eles caminham entre os vivos como se fossem espectros, assombrados por aquilo que poderiam ter sido, mas que enterraram sob o peso da mediocridade.

A Morte suspirou, tocando suavemente no ombro dele.


— O que tu chamas de morte dos sonhos, eles chamam de "sobrevivência". Eles se esquecem de que o propósito é uma escolha que se renova a cada despertar. Tu és o guardião do que eles poderiam ser, mas eles são os únicos artesãos do que eles decidem ser. Se eles deixam de buscar o que os faz vibrar, o "eu" verdadeiro começa a definhar. É uma morte silenciosa, sim. Mas é uma morte que eles escolhem todos os dias quando silenciam a própria voz interior para agradar ao mundo.


— Mas não é justo — insistiu o Sonho. — Eles vêm ao mundo com uma centelha, com uma promessa de realização, e deixam-se apagar pela primeira tempestade de desilusão.


— A justiça não é o que rege a vida, irmão. A coragem é que a rege — disse a Morte. — A morte física eu busco quando a caminhada termina. Mas a morte do propósito... essa é a única que eles têm o poder de evitar. Muitos me encontram e eu vejo em seus olhos o vazio de quem nunca realmente viveu, porque nunca tiveram a coragem de ser quem nasceram para ser. Tu os lembras de que eles são infinitos enquanto sonham. Eu apenas os lembro de que o tempo que lhes resta é curto demais para viverem a vida de outra pessoa.


O Sonho olhou para as vastidões novamente, compreendendo que a sua tarefa não era apenas entregar visões, mas despertar na humanidade a percepção de que a "morte em vida" é um abismo que se contorna com a ação.


— Então, enquanto houver fôlego — concluiu o Sonho — eu continuarei a sussurrar-lhes que a única sentença definitiva é a que eles mesmos assinam quando desistem.


— Exatamente — respondeu a Morte, sorrindo. — Tu cuidas da chama, e eu cuido do repouso. Mas a escolha de não se apagar antes da hora? Essa é uma responsabilidade que nem tu, nem eu, podemos carregar por eles.